SBPdePa e UniRitter
SBPdePA e UniRitter promovem Pós-Graduação em Psicanálise e Educação
Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre e Centro Universitário Ritter dos Reis promovem curso de Pós-Graduação em Psicanálise e Educação
José Ricardo Pinto de Abreu
Coordenador Comissão Relações com a Comunidade*
A Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre (SBPdePA), pela Comissão de Relações com a Comunidade, sente-se orgulhosa de ter organizado, em parceria com o Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter) o Curso de Pós-Graduação em Psicanálise e Educação.
Formatado conforme os requisitos do Ministério de Educação e Cultura (MEC), o curso proporcionará aos alunos um título de especialista devidamente reconhecido. Essa será uma credencial importante que poderá habilitar os profissionais saídos da graduação ao trabalho nos ambientes universitários. Aos mais experientes, o curso oportunizará uma revisão e o aprofundamento dos conceitos psicanalíticos na contemporaneidade.
O funcionamento do curso encontrou a justificativa que segue, oferecida pela Comissão de Relações com a Comunidade da SBPdePA ao Curso de Pedagogia da UniRitter que nos dá guarida: "A psicanálise sempre manteve estreitos laços com a cultura de um modo geral e com a educação de modo particular. Existe, na obra de Sigmund Freud, inúmeras referências à Educação. Embora o fundador da psicanálise não tivesse desenvolvido uma pedagogia psicanalítica, ele se orgulhava dos trabalhos da sua filha A. Freud no campo relacionado à Educação. Posteriormente, os seguidores, como M. Klein, D. Winnicott, Bion e Lacan, produziram textos importantes que contribuíram para a compreensão dos aspectos emocionais da aprendizagem e da relação professor/aluno, bem como das relações institucionais. Essa breve alusão à história evidencia o interesse, hoje renovado, pelas instituições psicanalíticas na busca de uma aproximação da psicanálise junto à universidade e à educação.
Com efeito, verificam-se inúmeras iniciativas de aproximação da psicanálise à educação no contexto acadêmico. As principais universidades do país, como é o caso da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), possuem cursos de pós-graduação em psicanálise ou em psicanálise relacionada diretamente com a educação. Em nosso meio, a Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (FACED/UFRGS) oferece uma disciplina para os programas de pós-graduação. Todavia, não temos no Rio Grande do Sul (RS) um curso regular, dirigido a um público-alvo interessado na articulação Educação-Psicanálise.
Um curso de pós-graduação que enfatize as contribuições da psicanálise para a aprendizagem, focalizando os aspectos emocionais relacionados aos seus personagens e suas instituições, despertará interesse imediato. A área ainda carece de pesquisa sistemática, embora existam já publicações significativas que exploram o tema.
A sociedade contemporânea pós-moderna, com suas peculiaridades, impõe desafios que necessitam ser enfrentados com recursos das ciências humanas para dar conta da solidão e do ensimesmamento narcísico das pessoas exageradamente voltadas para si, em busca de satisfações imediatas, quase sem desfrutar do prazer da reflexão e das trocas construtivas com os outros. As conseqüências para o exercício do magistério, em particular, são bem conhecidas, face às importantes mudanças tanto no papel dos professores como dos alunos e familiares. De fato, a perda dos papéis definidos, o borramento dos limites, a confusão entre gerações, a fragilidade das instituições têm levado ao insurgimento dos alunos, a problemas disciplinares, ao baixo rendimento acadêmico e até à violência. Professores, psicólogos, médicos, profissionais graduados das áreas humanas de todo o Estado poderão encontrar uma oportunidade única de especialização, podendo aprofundar conhecimentos e qualificar sua prática profissional, o que certamente oportunizará mais desenvolvimento técnico, cultural, social e, indiretamente, econômico.
O curso tem a duração de 360 horas; portanto, consiste numa atividade científico-educacional de fôlego e inédita para nossa Sociedade e rara para o contexto psicanalítico brasileiro.
Com efeito, desde a década de sessenta, a psicanálise vem se aproximando das universidades pelo empenho dos psicanalistas interessados no ensino. A experiência que estamos iniciando, entretanto, não se caracteriza por ser uma ação individual, mas o resultado da aproximação de duas instituições: de um lado, uma universidade, de outro, uma sociedade de psicanálise, a SBPdePA.
Em anos recentes, houve uma experiência similar realizada pela Sociedade Psicanalítica de Mato Grosso do Sul, apoiada pela IPA, auspiciado pelo Developing Psychoanalytic Practice and Training Programme (DPPT), que visava capacitar especialistas para o ensino na universidade. Com esse curso, os psicanalistas se habilitaram para o exercício das atividades acadêmicas, adequando-se à legislação vigente, que exige qualificação mínima de especialista.
Nosso caminho vem se construindo aos poucos, passando pela formalização de um acordo de colaboração técnico-científica com a UniRitter em 2006, ainda na gestão da Dr.ª Ana Rosa Trachtenberg. Entre tantas atividades que realizamos nessa universidade com professores e alunos, ficou marcado o início com a participação do Dr. Abreu no programa de qualificação docente. Seguiram-se outras participações com inúmeros colegas da SBPdePA.
No início deste ano 2008, a Diretoria da SBPdePA, presidida pelo Dr. Lores Meller, aprovou a intenção apresentada pelo coordenador da Comissão de Relações com a Comunidade de desenvolver um curso regular numa área de aplicação da psicanálise.
O contato continuado com os professores do Curso de Pedagogia da UniRitter, proporcionado pela Psicopedagoga Iara Wrege, possibilitou condições para apresentar a proposta do Curso de Psicanálise e Educação para esta universidade.
Um trabalho conjunto da Comissão de Relações com a Comunidade com o grupo de professores do Curso de Pedagogia da UniRitter, especialmente as reitoras Beatriz Felippe e Célia Elizabete Caregnato e as professoras Neusa Hickel, Beatriz Títon e Noeli Maggi, foi costurando as idéias e aprimorando o Programa do Curso.
Com a realização desse curso, a SBPdePA sente-se em consonância com o pensamento vigente nas instituições maiores, como a International Psychoanaytical Association (IPA) e a Federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI), que almejam aproximar a psicanálise da comunidade geral, especialmente a científica e a universitária.
Com efeito, a estratégia da IPA, nesse particular, tem como objetivo prioritário o fortalecimento das relações com a sociedade em geral e, para isso, criou um conjunto de programas e de comitês para cuidar da difusão da psicanálise. O DPPT, ao qual concorremos e fomos contemplados em 2004 e 2006, é um desses programas. Os comitês sobre a Psicanálise e Cultura e o Comitê sobre a Psicanálise e Universidade fazem parte dos instrumentos para se alcançarem os objetivos delineados.
Na linha de encontro com o pensamento internacional apresentado pela IPA, a FEBRAPSI, pelo seu presidente, Dr. Cláudio Rossi, assim se manifestou recentemente: "Podemos aumentar nossa participação nas universidades, nos meios de comunicação e nos grupos sociais que nos envolvem. Podemos esclarecer a população a respeito das diferenças entre a Psicanálise e centenas de outras coisas que têm sido chamadas indevidamente de Psicanálise".
Os ganhos para os alunos e para as instituições logo aparecerão. Conforme Mezan, a universidade vai desfrutar de um grupo de profissionais experientes e identificados com um pensamento psicanalítico e com o exercício da clínica. Os psicanalistas em contato com o ambiente universitário, dado o pluralismo e o trabalho multidisciplinar, poderão levar para a sua instituição um pouco dessa experiência, conforme o clima que aí se respira, um pouco mais arejado, por estar menos sujeitos às manifestações de transferências. Além disso, o contato mais próximo com metodologias de ensino e com as atividades de pesquisa poderão ser enriquecedores. O contato com o discurso acadêmico, que exercita o rigor intelectual, implica um exercício diferente daquele que o psicanalista está acostumado na atividade da prática clínica.
* Comissão de Relações com a Comunidade é constituída pelos psicanalistas Denise Zimpeck Pereira, Jussara Körbes, João Luís Ribeiro, Rosa Squeff, Flávio Roithmann, Heloísa Fetter e a psicopedagoga Iara Wrege (assessora).